Por: Gil Teixeira

“Estou farta de não comer bifes”. - Disse-me um dia a pequenina Paula. – “Gosto muito de sopa. Tu não me podes levar contigo para casa?”
Tinha quatro anos quando veio ao meu escritório pela mão da sua maior amiga. Vivíssima. Linda como uma boneca morena. Um nível de linguagem avançado. Uma mentalidade com o dobro dos da sua idade.
Nasceu na geração da droga, quer dizer os pais são associetários, quer dizer os pais, por que tiveram ou viveram com demasiadas facilidades, um dia levantaram-se de manhã, cansados de não fazerem nada, por que os seus pais se encarregam disso, e pensaram o contrário de Descartes, ou seja, não precisamos de pensar, logo não existimos, e vai daí começaram a apanhar a sua “pedrada”, e a deixar de existir. Trabalhar não era preciso. Sempre foram superprotegidos, os pais da Paula que tinha quatro anos de idade e que estava cansada de não comer bifes e gostava muito de sopa. Os avós da Paula são pessoas honestas e de condição humilde.
Dantes, a droga era só para os ricos, quer dizer, os pais da Paula, embora fossem filhos de gente pobre, tiveram uma infância igual à dos filhos ricos. Contra a infância dos avós da Paula, que estes tiverem uma infância de miseráveis e por isso não precisaram de droga para lutar contra a sociedade, quer dizer os avós da Paula começaram a lutar contra a droga da sociedade desde muito cedo. Teriam os seus pouco mais de dez anos, quer dizer um pouco mais de seis anos do que aqueles que a Paula tinha quando veio ao meu escritório, e também cedo se começaram a fartar de não comer bife, quer dizer os avós da Paula havia mais de cinquenta anos que começaram a sua lula contra a sociedade, descalços com fome, mal vestidos, mas limpos da droga.
A senhora que veio ao meu escritório e que trouxe consigo a Paula sofre de hipertensão e de outros distúrbios de ordem nervosa que a fizeram cair no desemprego havia quase dez anos. Perdeu o primeiro emprego, entrou em depressão. Não recebeu aquele chorudo subsidio de integração que os políticos recebem, se antes não se reformarem, quando abandonam os grandes empregos pagos com o dinheiro dos impostos e que se diz que é do Estado para nos esquecermos que é nosso. A partir daí começou a envelhecer, entrou na “legião dos verdes”, quer dizer daqueles que se querem trabalhar por contra de outrem têm de passar o dito recibo, seis meses aqui outros “acoli” e assim sucessivamente até ficar boa para a reforma. Tem um filho.
A Paula, como disse, é filha do filho da senhora que veio um dia ao meu escritório, ou seja é sua neta. O pai da Paula foi o tal rapaz que um dia acordou com o pensamento ao contrário, quer dizer sem necessidade de pensar o por isso resolveu empedrar-se, quer dizer aderiu à doença que até ali era só dos ricos e começou a experimentar os poderes sobrenaturais da droga. A partir daí o pai da Paula começou a transformar a vida da avó e do avô desta num martírio ainda maior do que estes já tinham conhecido quando começaram a lutar contra a sociedade de pés descalços. O pai da Paula acabou por ser hospedado permanentemente num desses locais que se inventou chamar de cadeias. O pai da Paula foi “reeducado”. Junto com criminosos de alto gabarito, estes generosos, reensinaram o Pedro a pensar para, como o Descartes, existir. Entretanto a Paula e avó fartaram-se de não comerem bifes. Felizmente que a Paula gostava muito de sopa...
Gil Teixeira